segunda-feira, 10 de maio de 2010

Das trevas para a luz

Meu nome é Pedro Paulo.

Nasci já em um lar destruído, cheio de enganos orgulho e vaidades. Não vou citar nomes para não causar transtornos ou inconvenientes para ninguém. Desde os primeiros anos de vida, começou o que seria para mim um pesadelo acordado, pois, eu ouvia vozes. Era como muitas pessoas falando sem que eu pudesse compreender. Sempre acontecia quando eu estava sozinho e principalmente à noite, quando todos dormiam. Recordo-me que eu chamava minha mãe e dizia que havia pessoas na casa. Ela me dizia que não era ninguém e que eu deveria continuar dormindo. Quando eu lhe perguntava o que eram aquelas vozes, ela me falava que só eu poderia ouvir, pois eu era especial e ninguém mais poderia ouvir, então, cresci enganado.

O tempo passou e eu aprendi a conviver com as vozes, até que passei a ver os espíritos. Morávamos em uma casa muito grande e antiga, com muitos cômodos e um sótão. Eu os via sempre no fundo da casa e sobre as árvores. Eles eram como pessoas; outras vezes apareciam em forma de macacos. Dentro de mim, eu sabia que eram os mesmos, ainda que a aparência fosse diferente. Eu nunca conseguia entendê-los. As vozes deles eram como uma multidão de vozes discutindo ou brigando.

Eu era muito introvertido, falava muito pouco e passava o tempo todo perdido em meus pensamentos. Fui criado com duas irmãs e minha mãe; era o único homem. Começaram a surgir também os primeiros problemas dentro de casa e depois na escola. Sempre fui perseguido e maltratado, principalmente pelos da minha família. Tudo o que aprendi foi na rua e nunca pude contar com a ajuda de ninguém. Com apenas nove anos, comecei a beber e me embriagar. Experimentei o cigarro e já sentia um desejo enorme de estar com mulheres. Eu já não as via mais com os olhos de uma criança. Andava muito sozinho e em lugares ermos e, por isso, muitas vezes estive com a vida na berlinda.

Àquela altura, já não ouvia as vozes com muita frequência. Minha mãe havia perdido tudo o que tinha, inclusive a vontade de viver. Lembro-me dela sempre sentada em uma cadeira. ficava ali imóvel, por muito tempo. Eu queria poder ajudá-la, mas não podia, não sabia como. Comecei a estudar, ler tudo sobre misticismo, psicologia e espiritualidade. Percebi que tinha um dom incrível de influenciar e enganar as pessoas. Comecei a tirar proveito disso e, enquanto muitos que eu conhecia usavam armas para roubar, eu usava as palavras e uma caneta. Estava sempre envolvido com muitas mulheres, bebidas e já estava consumindo drogas também. A perturbação na minha cabeça era cada vez maior. Dentro de casa só havia brigas, incompreensão, divisão e desrespeito. Mas, mesmo diante de tudo isso, era interessante o fato de que eu sempre me mantinha calado e procurava não ofender as pessoas. Por mais que me fizessem mal, eu tinha uma preocupação de não machucar ninguém, embora o fizesse sem perceber através dos muitos relacionamentos que eu mantinha com mulheres.

Certa vez, eu estava em uma cidade do Brasil com uma pessoa para aplicar golpes de estelionato. Depois de aplicar o primeiro golpe, voltei para o hotel e, de repente, bateram à porta. Havia um rapaz chorando, mas com muita coragem, me pedindo que devolvesse os produtos que eu havia adquirido. Ele dizia que tinha certeza que eu havia aplicado um golpe e que tudo só seria descoberto depois de algum tempo, mas como ele era o responsável, teria que assumir, e seu salário mal podia mantê-lo com sua esposa e filha. O outro que estava comigo queria matá-lo. Queria jogá-lo pela janela, a queda seria fatal. Muita coisa passou pela minha cabeça. Eu tinha 19 anos, muita saúde e força, apesar de ter uma vida noturna e muitos vícios. Estava diante de um ex-policial corrupto e fracassado e um jovem que dependia do salário para sustentar a filha. Mesmo com todos os erros, minha mãe havia me ensinado, ainda que da maneira errada, a temer a Deus, e isso foi o que definiu aquele momento e eu deixei que aquele rapaz fosse embora. É claro que eu o ameacei, mas deixei-o seguir. Meu cúmplice não podia me fazer nada naquele momento, pelo menos não sozinho; mas eu tinha ciência de que poderia mandar alguém.

Decidi sair do Brasil. Queria mudar de vida. Tomei a decisão de não mais beber, fumar ou usar drogas. Para conseguir isso, me aprofundei no espiritismo. Adquiri um profundo conhecimento em quiromancia, parapsicologia e telepatia. Mudei para o Japão e comecei a trabalhar. Pensei que finalmente seria feliz e um dia voltaria para minha família. Pouco antes de sair do Brasil os ataques voltaram; somente em sonhos, porém não tão fortes como antes.

Quando eu cheguei ao Japão tudo ficou calmo por algum tempo. Depois de alguns anos, recomeçaram só que com maior frequência e cada vez mais fortes. Foram anos de muito tormento. As portas abriam e fechavam; as luzes acendiam e apagavam. Eles batiam à porta, caminhavam pela casa. Se eu estava no quarto, eles estavam na cozinha e vice-versa. Comecei a enlouquecer. Eu já havia buscado respostas e não as encontrava. Conheci uma garota, me relacionei com ela e ela engravidou. Eu não queria, mas ela decidiu abortar o bebê, então, eu a levei ao hospital e foi feito o aborto. Depois disso, eu via a criança deformada constantemente. O telefone tocava e quando eu atendia um bebê começava a chorar. Desligava e outra vez tocava. Quando atendia, o bebê estava chorando. Eu falava com eles, xingava, desafiava; pedia para que eles se materializassem para que eu pudesse me defender. Daí, começaram a tocar no meu corpo. Me prendiam e eu tentava, com todas as minhas forças, me defender, mas a força deles era algo incrível. Muitas vezes, subiam no meu corpo a ponto de eu sentir a respiração deles como de animais. Sentia as patas, os pêlos e o peso deles sobre mim.

Ao mesmo tempo, tudo dava errado em minha vida. Não conseguia ficar muito tempo no mesmo lugar. Mudava constantemente de casa, de trabalho, de namorada, etc. Tudo era muito passageiro na minha vida. Ninguém me entendia. O pior é que eu não deixava ninguém perceber o que eu realmente vivia. Eu passava para os outros segurança e uma tremenda falsa felicidade. As pessoas que me conheciam queriam ficar próximas de mim. Elas buscavam de mim solução para os seus problemas. E o que fazer se eu não tinha nem para mim? Mas, ninguém sabia disso. As poucas vezes que eu conseguia dormir, acordava chorando com um vazio e uma tristeza muito grandes, que eu não conseguia entender por quê. Sentia-me daquela maneira mesmo quando tudo estava bem.

Sei que é difícil acreditar, mas, muitas vezes, os espíritos me levaram para dentro do inferno. Lá, eu via as pessoas em uma situação que eu jamais vou esquecer. Eles me mostraram uma escada em forma de caracol, que descia muito profundo, e lá as pessoas estavam acorrentadas pelos pés, nuas e com as mãos algemadas. Desciam para o horror. Todos choravam de cabeça baixa sem ter como se defender. Era como se já estivessem condenados. Mostraram-me guerras, mortes e crianças sendo mortas e enterradas vivas em abismos onde havia muito fogo como um vulcão. Eu sentia até mesmo o calor e quase me queimava. Muitas vezes, nesses momentos, eu queria voltar, então, eu via o meu corpo como se estivesse morto e eu no ar suspenso. Isso me aconteceu muitas vezes, durante muitos anos, e eu pedia a Deus que me ajudasse, que me deixasse regressar. Quando eu gritava, com todas as minhas forças, a palavra “Deus”, então eles desapareciam por um pouco de tempo.

Voltei a beber e a consumir drogas, pois assim era uma maneira de fugir de mim mesmo. Anos de trabalho jogados no lixo, vivendo uma mentira, uma vida que não era minha. A mentira para mim era tão real que eu cria que era verdade. Dono de uma sabedoria mundana, tinha resposta para tudo. Passei a tomar, sem exagero, mais ou menos um litro de uísque por dia, e ninguém percebia. Bebia como se fosse água em conjunto com as drogas. Não me lembro de alguém ter falado de Deus ou da Bíblia para mim. Apenas sei que eu já tinha tudo deturpado na minha cabeça. Estudei ufologia e lá também se usa a Bíblia para provar que os extraterrestres existem. Eles usam a passagem de Gênesis cap. 6 – 1,2: “vendo os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas,tomaram para si mulheres.” Para eles, estes filhos de Deus seriam os supostos óvnis. A ascensão de Jesus seria uma nave embaixo de uma nuvem, que o levou ao céu. Enfim, toda sorte de engano estava dentro de mim. Mesmo eu tendo uma visão perfeita, não enxergava totalmente. Enxergava apenas com a metade dos olhos para baixo. Não enxergava para cima, por isso eu olhava apenas para baixo, como as pessoas descendo pela escada.

No meio de todo esse tormento, retornei ao Brasil e lá foi o fundo de poço: tristezas, derrotas, fracassos e muita humilhação. Fui parar na casa dos encostos. Chegando lá, o tal espírito me fez uma série de perguntas que me deixou desconfiado. Eu adivinhava ainda mais quando precisava. Mas, resumindo, me disse que eu havia sido preparado todos aqueles anos para servi-los e comandar aquele lugar. Eu precisava aceitar que o espírito que se intitulava meu dono ou meu pai estava ali me esperando e estava pronto para entrar no meu corpo. Disse-me que enquanto eu não aceitasse, minha vida não iria mudar. Não sei explicar por que eu disse que não aceitava. Na mesma hora criou-se uma situação naquele lugar. O tal espírito me fez a seguinte pergunta: “O que você está procurando? Você veio de longe, o que quer aqui?” Eu respondi: “Estou em busca da verdade!” Ele não teve nenhuma resposta para me dar. Disse-me para voltar depois de alguns dias e pensar a respeito do tal guia que eu tinha que receber.

O tempo determinado passou. Eu estava em uma festa e lembrei-me que havia chegado o momento de voltar àquele lugar. Nesse momento, eu escutei uma pessoa dizer à outra: “Não adianta o Paulo ir lá hoje porque o local está de quarentena. Começa hoje e só vai retomar as atividades dentro de 40 dias. Ele está muito perturbado. Existe um lugar aí na cidade que quando as pessoa estão assim e vão até lá tem uns pastores que expulsam o mal que está nas pessoas.” Isto foi o suficiente para eu sair andando pelas ruas sem saber que lugar era este, porque o orgulho jamais iria me permitir perguntar, mas eu andei não sei por quanto tempo. Andei muito a pé. Até que passei na porta do lugar. Eu não conseguia enxergar o nome nem identificar, mas uma voz dentro de mim dizia que aquele era o lugar que aquela pessoa falou. Uma voz dizia: “Entra aí!” E outra voz dizia: “Não entra!” Eu fiquei ali não sei precisar por quanto tempo até que entrei.

No mesmo momento, o peso que eu carregava saiu de sobre mim. Lá, encontrei um garoto falando coisas que eu não entendia mas com uma autoridade que eu não conhecia. Saí de lá e o peso voltou. Pela noite, eu os ouvia falando e via uma fogueira que eles fizeram no fundo da casa. Estavam muito irritados comigo. Então, eu me lembrei da canção que eu ouvi lá e comecei a cantá-la. Depois de muito tempo passei a me sentir bem. Então, voltei àquele lugar pela tarde.

O lugar que era enorme e estava entupido de gente. Pessoas de todos os tipos. De repente, aparece um homem de branco e começa a cantar e falar, então, já não o ouvia mais. Ouvia um som que eu estava acostumado a ouvir. Era um reboliço enorme com pessoas ajoelhadas caindo e eu me segurava na poltrona da frente com toda força para não cair. O suor escorria do meu corpo como água e uma vontade de fechar os olhos e me apagar, mas o que estava acontecendo ali eu tinha que ver até o fim. Até que chegou um silêncio e pude ouvir o que diziam. Escutei o homem de branco dar ordens para as pessoas que estavam ali todas tortas a se ajoelharem e as chamava por nomes que eu conhecia muito bem, e a ordem era em o Nome do Senhor Jesus. Só aí entendi de que lado eu estava; quem era Deus e quem eram os vilões. Caiu a venda dos meus olhos; a escuridão deu lugar à luz e, aos poucos, o peso foi desaparecendo. Comecei a viver novamente. Voltei a sorrir e acreditar que poderia ser feliz. Comecei uma corrida desesperadora para falar a todos que eu conhecia e que viveram comigo que estavam sofrendo. Eu queria falar de Jesus para todos.

Voltei ao Japão e procurei todos para falar de Jesus. Em 3 meses, eu levei quase 70 pessoas à Igreja. Muitos creram e se converteram, mas eu não pensei que já estava tudo bem. Assim como antes, procurei ler toda a Bíblia. Não apenas uma vez. Li duas vezes. Queria saber mais que o pastor. Não fumava, não bebia, não usava mais drogas, porém, às vezes, mentia para me dar bem. Não vencia a minha carne, estava sempre caindo no erro da prostituição e promiscuidade. Chegava ao ponto de me deitar com uma pessoa e o diabo falar através dela comigo. Me arrependia, chorava e pedia perdão a Deus, mas não durava muito. Às vezes semanas, às vezes meses, e novamente eu cometia o mesmo erro. Isso durou mais de 5 anos até que não tive força mais de ir à Igreja e novamente eu estava no fundo do poço, sem nada, com dividas e muita vergonha por me dizer de Deus e dar um testemunho tão horrível e podre.

Na ocasião, eu tive um relacionamento com uma pessoa que engravidou e mesmo diante desta gravidez eu a abandonei e fui para os Estados Unidos. Estava mais uma vez viciado em álcool e drogas. Estava sem direção e sem saber o que fazer. No primeiro dia que cheguei aqui, alguém que não vi o rosto me deu um convite da Igreja, então eu já sabia o endereço, mas não podia voltar. Pensava que Deus nunca iria me perdoar por tudo o que fiz. Quando alguém falava que estava sofrendo, mesmo perturbado, eu levava a pessoa à Igreja e não entrava. Até que um dia comecei a pensar por que estava tudo dando certo para mim. Afinal, eu estava conseguindo viver bem em um país onde eu acabara de chegar. Tinha dois bons trabalhos e não precisava de nada. Lembrei-me que uma vez o pastor falou que Deus nunca fica devendo nada para ninguém e que tudo o que alguém faz ou oferta na Igreja, quando a pessoa O abandona, Deus devolve tudo para ela. Já havia completado mais de ano que eu estava afastado e comecei a pensar na minha Salvação e em tudo o que Deus havia feito em minha vida e na vida de outras pessoas que eu conhecia e tinha levado até a Igreja. Decidi voltar.

Quando voltei, começou meu processo de libertação outra vez e, um dia, quando acordei, decidi fazer um voto com Deus. Quando eu cheguei à Igreja o pastor disse que quem estava ali disposto a fazer um voto com Deus, um pacto de sangue, de vida ou morte, poderia ir até o altar. Eu já estava lá e não ouvi mais nada que o pastor falou. Eu disse para Deus: “Não posso mais ser a mesma pessoa; quero mudar! Se o Senhor me perdoar e me aceitar, ainda que seja para limpar o banheiro da Igreja e fazer com que as pessoas que eu prejudiquei me perdoem, e que um dia eu possa ver a minha filha que não vi nascer e rever minha mãe com vida, entrego a Ti minha vida e prometo Te servir até o último dia da minha vida. Se eu voltar atrás e me prostituir e não Te obedecer, o Senhor pode me entregar nas mãos dos meus inimigos físicos e espirituais.” Na mesma hora, tive a certeza de que os demônios que estavam em meu corpo saíram de dentro de mim e o Espírito Santo já estava dentro de mim. Pedi a confirmação e na mesma semana recebi. Fui sincero no meu voto, foi meu último recurso.

Todas as vezes que meu corpo pedia algo, eu me lembrava do voto e dos meus inimigos. Passei pelo deserto e enfrentei muitas lutas. A cada dia foram acontecendo milagres. Eu decidi esperar que Deus concertasse a minha vida porque, apesar de ter 40 anos, eu achava difícil me relacionar com alguém outra vez, mas por outro lado, eu cria e confiei em Deus, como diz em Provérbios 19, 14: “A casa e os bens são herança dos pais; porém do SENHOR vem a esposa prudente.” Eu confiava e esperava nesta promessa. Um dia, eu dobrei os meus joelhos e pedi que essa promessa se cumprisse em minha vida e não demorou muito, como as outras respostas de Deus. Logo eu encontrei a que seria minha esposa e companheira nesta nova fase da minha vida. Como eu havia pedido a Deus que não fosse a minha escolha, mas a escolha Dele para mim, que Ele me desse a certeza e confirmasse no meu coração, e assim foi.

No dia em que eu a vi pela primeira vez, eu tive a certeza no primeiro olhar; no primeiro diálogo a certeza foi se confirmando. Nasceu um amor capaz de nos unir para sempre. Hoje, sou casado e feliz com a melhor esposa e a mais bela entre todas. Não preciso me envolver com outras mulheres nem tampouco buscar a felicidade que eu tanto busquei e nunca encontrei, porque só agora, depois de ter tido tantas mulheres, descobri o que é o amor, o sexo verdadeiro, a cumplicidade e o sentido da palavra família.

Pedro Paulo Nakagawa

Dos Estados Unidos

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