Pesquisar este blog

domingo, 31 de outubro de 2010

Violência doméstica e maus tratos

Da boneca à vassoura: o retrato dos abusos físicos nas crianças

Maus tratos e torturas tornaram-se mais um membro das famílias

- Meu Deus, um dia me livra daqui. Por favor, me livra daqui.

- Por que você não enxugou meu banheiro?

- Ah, tia, esqueci.

- Ah, esqueceu? Então, você vai ver o que é bom.

- Não tia, não faz isso não. A senhora não precisa me bater. Me perdoa, tia. Eu já aprendi...

- Amarra ela. Acorrenta. Liga o ferro, deixa bem quente e me dá aqui.

- Não, tia, por favor...

...

- Agora, me traz o alicate. E uma tesoura também.

- Tia, por favor, eu já aprendi...

- Põe a língua pra fora. Põe a língua pra fora, anda!

- Eu já aprendi, tia. Tia, pelo amor de Deus, ti....

...

A menina Lucélia Rodrigues, de 12 anos, ‘reza’ todos os dias para sair do martírio ao qual é submetida diariamente. Sofre torturas pelos meios mais cruéis e inimagináveis por uma empresária de Goiânia, a quem chama de tia, e que a adotara ilegalmente. Mas o sofrimento da criança começou muito antes, quando a mãe biológica, que não tinha condições de criá-la, a entregou aos cuidados da empresária. Com mais cinco crianças em casa, o jeito era se desfazer dos filhos, como forma de minimizar os problemas financeiros.

Muitos fatos como esse ocorrem frequentemente no País, já que cerca de 127 mil denúncias de violência contra menores foram registradas no Disque 100 desde sua criação, em 2003. Por dia, 77 casos são denunciados. Mas há 7 anos, o número não passava de 12, é o que diz a Secretaria Especial de Direitos Humanos.

Como no caso acima, centenas de crianças são adotadas de forma ilegal. Com isso, os novos pais nem sempre cumprem o que prometem para as verdadeiras famílias. Assim, sem o conhecimento da Justiça, muitos se aproveitam da fragilidade infantil e da falta de conhecimento dos genitores para descontar nas crianças suas raivas, estresses, nervosismos e outras emoções. E a violência física, sexual e emocional torna-se mais um membro da família, tão presente na vida das crianças quanto um simples ursinho de pelúcia. Da mesma forma que Lucélia, um milhão de garotos e garotas abaixo dos 14 anos trabalham em vez de estudar, sendo que, no mundo, segundo a Organização Internacional do Trabalho, são 215 milhões. Ademais, cerca de 5% das crianças em idade escolar sequer foram matriculadas, e muito menos estudam.

A angústia e orações de Lucélia duram 2 anos. A polícia invade a casa e encontra a menina amarrada, amordaçada e acorrentada em uma escada nos fundos do imóvel. Os policiais choram. Nem mesmo eles, acostumados com toda forma de maldade, aguentam ver a cena aterrorizante. A garota, sem uma parte da língua, e o corpo salpicado de hematomas e queimaduras de ferro de passar, começa a contar tudo o que sofrera. As unhas, roxas, foram pintadas com marteladas nos pés e mãos prensadas na porta. Magrinha, era deixada constantemente sem se alimentar. Sem direito a água ou comida, ingeria forçadamente fezes e urina de cachorro. A delegada do caso, Adriana Accorsi, disse, em entrevista a um programa de tevê, que “a conduta de ter muitos filhos e por não ter condições de criá-los, entregando essas crianças para outras pessoas – como a mãe de Lucélia fez com cinco dos seus seis filhos –, realmente é moralmente duvidosa e reprovável”. E ainda aconselhou: “Nós devemos ter os filhos que nós podemos cuidar e devemos cuidar com carinho e atenção. Se ela não tivesse entregado (a filha), nada disso teria acontecido.”

Apesar deste alerta, é cada vez mais comum mulheres, sem nenhum preparo psicológico, darem à luz meninos e meninas todos os dias. Para se ter uma ideia da gravidade da situação, o Sistema Único de Saúde (SUS), registrou 444.056 partos envolvendo meninas de 10 a 19 anos. Sem dinheiro para o sustento nem de si mesmas, muitas optam pelo abandono, entregam para adoção legal ou não, ou ficam com os filhos, sem possuir condição mínima para educá-los. Então, sem freio nas mãos, a violência física é a primeira marca que surge no meio atribulado em que a criança vive. Além disso, ainda existe a negligência, a falta de cuidados e de atenção, que agridem o menor tanto quanto os abusos físicos ou sexuais. E os motivos ou (in) justificativas são os mais diversos, e vão desde as práticas e crenças religiosas, meio de disciplina e educação, até a falta de estrutura psicológica para cuidar de um pequeno ser.

Lucélia, após o período de 2 anos de sofrimento, maus tratos e torturas, é liberta. A empresária Silvia Calabresi Lima e a empregada doméstica Vanice Maria Novaes são presas. Hoje, a adolescente de 14 anos voltou a estudar e a ser criança, mesmo marcada no copo e na alma. Quer ser delegada de polícia e “cuidar das crianças do Brasil”. Atitude nobre para quem fora forçada a trocar, por um período, as bonecas por vassouras, rodo, balde e espancamentos. A passos curtos, seu sonho caminha para a realização. Só resta saber se até lá as outras milhares de crianças, que sofrem escondidas pelo País, aguentarão esperar pelo futuro ato heroico da menina.

Nenhum comentário:

Postar um comentário