Pesquisar este blog

domingo, 5 de dezembro de 2010

Preconceito contra o Nordeste

Qual a explicação para a discriminação ao povo nordestino? Será que a maioria das pessoas concorda com as atitudes preconceituosas?
Por Jaqueline Corrêa




Segundo o dicionário Houaiss, a palavra preconceito significa “qualquer opinião ou sentimento, quer favorável quer desfavorável, concebido sem exame crítico; ideia, opinião ou sentimento desfavorável formado a priori, sem maior conhecimento, ponderação ou razão; atitude, sentimento ou parecer insensato, de natureza hostil, assumido em consequência da generalização apressada de uma experiência pessoal ou imposta pelo meio; intolerância”.

Segundo a professora e doutora em antropologia social Irene Maria Ferreira Barbosa, docente da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), “discriminação e preconceito não são formas ‘inseridas’ na cultura brasileira, mas fazem parte do repertório de qualquer cultura diferenciada, marcada pela desigualdade social e competição pelo mercado de trabalho”.

Vivendo na pele

Isso pode explicar o que a jornalista Elliana Garcia passou quando chegou a São Paulo. E já na terra dos paulistas, sentiu que ‘baianada’ era sinônimo de inutilidade. Natural da Bahia, ela lutava para sustentar-se sozinha. Mas, esgotada, aos 15 anos de idade, largou a minúscula cidade de dois nomes e nenhuma referência no mapa, Ilha Formosa e Três Braços, e se mudou, apoiando-se nos próprios desafios, para a capital paulista.

O primeiro emprego foi como empregada doméstica. Mas em todo lugar em que trabalhou, diz ter sofrido com a discriminação. “Ou por ser do Nordeste, ou por ter sido pobre, ou pela falta de estudo. Sempre sofri alguma coisa em algum lugar. Essas expressões doíam demais, porque eu não entendia como isso me diminuía; me fazia mal”, lamenta. Elliana nem sabia que tanto desprezo gratuito tinha nome. E quando descobriu a identidade do preconceito, percebeu que ele já estava impregnado na pele e no sotaque dela havia muito tempo.

Perda da autoestima

Quem conversa com a jornalista hoje dificilmente percebe o grave sotaque de outrora, que tanto desafiava os ouvidos aguçados, acostumados com os agudos “Rs” paulistanos.

Elliana diz que chegou a sentir vergonha de dizer que era do Nordeste. Por isso tentava, de todas as formas, “perder as expressões e o vocabulário dos baianos”.

Aos 20 anos, foi trabalhar como faxineira em um hospital. O salário estava melhor, mas a discriminação não. “Lembro que sofri outra atitude de preconceito quando fui mandada embora por dirigir a palavra a um médico. Era uma regra não falar com os médicos, e ao me ver falando com um, a chefe da limpeza me despediu”, relata.

Então, em situações em que estava com os patrões, ela temia falar, se expressar. Sentia-se inferior demais para poder justificar sua presença no mundo.

Segundo a psicóloga Marina Vasconcellos, especialista em Psicodrama Terapêutico, "o preconceito pode provocar diversas reações, como raiva, revolta, desprezo e indignação. Vai depender do que estiver em jogo e da forma como ele é demonstrado".

Incitação à violência

Preconceito é uma das palavras mais ouvidas nos últimos dias. Tudo porque, recentemente, uma jovem paulista desencadeou uma série de episódios racistas contra nordestinos. Revoltada com a vitória da candidata Dilma Rousseff à presidência da República, a estudante de direito Mayara Petruso responsabilizou os nordestinos pela eleição da petista.

Como forma de protesto, Mayara publicou no twitter: “Nordestino não é gente, faça um favor a SP, mate um nordestino afogado!” A publicação rendeu à estudante dois processos, por racismo e incitação a homicídio, a pedido da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Pernambuco, além da demissão do escritório de advocacia onde estagiava.

A antropóloga Irene Barbosa comenta a atitude de Mayara: “No caso referido, é claramente um rescaldo do processo eleitoral em que, eleitores ressentidos por terem perdido a eleição, descarregam a ira sobre a parcela que venceu”. Porém, ela não acredita que a maioria dos paulistas discrimine nordestinos. “São piadas e gracejos que mostram discriminação, que também podem ser dirigidos a outros grupos diferentes da maioria paulistana, como os ‘caipiras’, do interior, ou os ‘carcamanos’, tão conhecidos na história de São Paulo”.

Direitos

De acordo com o Art. 5.º, inciso XLII, “a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei”. O que a vítima de preconceito pode fazer, em caso de ultraje, é procurar uma delegacia, imbuída de provas como gravações de áudio ou vídeo, além de testemunhas.

“Aconselho a quem se sentir vítima de qualquer preconceito a procurar seus direitos e também não deixar que palavras ou atos os impeça de seguir em frente. Respeitar o outro é o primeiro passo para essa evolução. Além disso, ninguém tem o direito de nos parar, principalmente o preconceito”, ressalta Elliana.

A psicóloga Marina explica que "se a pessoa não é segura de si, não confia em suas potencialidades, pode ficar mais insegura e prejudicar ainda mais sua autoestima que já é frágil. Mas, se ela tem uma boa autoestima, provavelmente sentirá algo ruim, mas não será o suficiente para prejudicar sua percepção de si. Se ela estiver bem consigo mesma, provavelmente saberá “relevar” o que aconteceu e não reagirá de forma agressiva, o que a colocaria no mesmo nível do agressor.".

Este era o caso de Elliana. Com o tempo, a jornalista passou de diferente a igual, e venceu a escalada da montanha de desafios, plantando esforço e colhendo superação. “Reverti tudo a meu favor. Fui estudar e mostrar que todos têm o seu lugar ao sol; que não é a origem, ou o sotaque que determinam o que queremos ser. Hoje, palavras de preconceito não fazem qualquer diferença na minha vida, pois tenho orgulho de onde vim, e sei para onde vou”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário