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quarta-feira, 21 de maio de 2014

Vítima de um boato da internet

Depois de uma falsa publicação em uma página do Facebook, Fabiane, de 33 anos, foi cruelmente linchada
Tudo começou com uma publicação no grupo “Guarujá Alerta”, comunidade do Facebook na qual ao menos 65 mil membros recebem atualizações diárias com denúncias de roubos ou irregularidades no município, um dos mais violentos do estado de São Paulo, ao mesmo tempo em que é um famoso balneário turístico da capital paulista.
A postagem na página da rede social trazia um retrato falado de uma moça branca, com lábios carnudos e cabelos escuros, acompanhado de um alerta: a mulher da imagem estaria sequestrando crianças para praticar rituais de magia negra com elas. Rapidamente, a mensagem se espalhou como um vírus entre os cerca de 20 mil moradores de Morrinhos. Por um mês pelo menos, pais recolheram seus filhos mais cedo com medo do que a agressora poderia fazer com eles.
Era um sábado de sol no último dia 3 de maio. Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, voltava da igreja, onde passou para buscar sua Bíblia, que havia esquecido na semana anterior. No caminho da volta para casa, parou no supermercado. Ao sair, ofereceu uma fruta que havia comprado a uma criança que estava sentada do lado de fora. Uma pessoa viu e a identificou como a suspeita aliciadora de menores da publicação do Facebook. Em poucos minutos, centenas de moradores a cercaram. Imbuída de um senso de justiça, a população resolveu agir por contra própria. Sem qualquer chance de defesa, Fabiane foi espancada ao som da turba ensandecida que clamava por vingança. Ela recebeu pontapés, socos, pauladas na cabeça, foi amarrada, arrastada e arremessada de uma ponte.
Quem não a agrediu, colaborou indiretamente, incentivando os “justiceiros” ou filmando tudo. Em um dos vídeos da agressão colocados na rede é possível ver que um rapaz passa com o pneu da bicicleta por cima da cabeça dela. Em outro, Fabiane, muito debilitada e sem forças, tenta levantar a cabeça e dizer algo. Impossível escutar o que ela dizia. Uma multidão de aproximadamente 100 pessoas entoava gritos de “mata, mata”. A ambulância que veio resgatá-la teve dificuldade para chegar ao local, os moradores jogaram pedras no automóvel para impedir sua chegada.
Fabiane não resistiu aos ferimentos e morreu dois dias depois na UTI do Hospital Santo Amaro. Enquanto ela estava internada, a Polícia constatou que ela era inocente. E mais: não havia sido registrado nenhum caso de sequestro de crianças na região nas últimas semanas. Tudo não havia passado de um boato, disseminado rapidamente e com força pela internet. O retrato falado era, na realidade, de uma mulher do Rio de Janeiro que havia tentado sequestrar uma criança no passado. Essa imagem já tinha rodado a internet em outras ocasiões, sempre com um tom alarmista. A dona de casa do Guarujá teve a infelicidade de se parecer com a mulher do retrato falado. Ainda que Fabiane fosse de fato culpada, ela teria que ser encaminhada a uma delegacia, ser investigada e julgada pela Justiça.
No entanto, Fabiane não somente era inocente, como não era envolvida com bruxarias, era evangélica, casada com o porteiro Jaílson Alves das Neves, de 40 anos, e mãe de duas meninas, Yasmin, de 12 anos, e Nicole, de apenas 1 ano.
No mês das mães, as duas crianças não têm o que comemorar. Até o fechamento desta edição, dois homens haviam se entregado à polícia: o eletricista Valmir Dias Barbosa, de 47 anos, preso no dia 6, e possível responsável pela paulada violenta na cabeça de Fabiane, que, segundo a equipe médica, teria sido o golpe fatal que culminou com sua morte; e Lucas Rogério Fabrício Lopes, de 19 anos, que teria passado com uma bicicleta sobre a cabeça de Fabiane. Eles mataram Fabiane, mas sua sentença já havia sido decretada quando o boato foi lançado.
Elas também foram vítimas da fofoca
Boato, mentira, calúnia e fofoca são todos da mesma família. Podem até parecer inofensivos no começo, mas provocam reações negativas em quem escuta, são altamente destrutivos e podem manchar uma reputação para sempre. A gerente comercial Simone Tateishi, de 34 anos, de Bauru viveu isso. Ela começou a enfrentar problemas no trabalho quando o restaurante que gerenciava foi vendido para uma rede de fast- food. “A nova dona do negócio não me queria lá. Então, ela colocava minha equipe contra mim. Meus colegas vieram me contar que ela falava que eu não sabia gerenciar um restaurante”, conta.
Assim como Simone, muita gente enfrenta boatos no ambiente de trabalho. Esse é, talvez, um dos mais perigosos tipos de calúnia, pois prejudica a imagem profissional da pessoa, impedindo-a de conseguir um emprego ou de se recolocar em outra empresa. “A nova dona do negócio colocou minha honra debaixo do chinelo. Dizia que eu não prestava para nada. Meus funcionários passaram a me tratar de forma diferente”, relembra Simone.
Outro tipo de boato muito comum e não menos agressivo é referente à reputação de uma pessoa. A cuidadora de crianças Valéria Rodrigues da Silva, de 19 anos, da pequena cidade de Tucuruí, no Pará, sentiu na pele o que é ter sua vida comentada por toda a vizinhança. “As pessoas falavam muito a meu respeito. Na época, eu andava com más companhias. Então diziam à minha mãe que eu era homossexual, que eu era ladra e não prestaria para nada. Minha mãe acreditava e me batia muito”, conta a jovem. “Mas era tudo mentira. Apanhei muito em casa por causa das fofocas”, desabafa.
Quem nunca deu início a um boato, que atire a primeira pedra. Na época em que Simone era vitima das intrigas de sua chefe, ela própria espalhava mentiras sobre a Universal e sobre o Bispo Edir Macedo. “Antes de ser convertida, eu dizia a todos que ele era um ladrão e que a igreja roubava os outros. Até desejei que ele morresse. Se tivesse a oportunidade hoje, gostaria de pedir perdão a ele”, confessa. No entanto, ela mesma passou a se questionar. “Se ele era tão ruim como diziam, por que é que sua igreja só cresce? Fui à Universal conferir. Me converti e me libertei de vícios que eu tinha na época, como o cigarro”, conta.
Tanto Simone quanto Valéria decidiram se afastar do ambiente de fofocas do qual foram vítimas. “Eu pedi demissão. Achei que seria o melhor a ser feito naquela hora. E foi.Senti um alivio muito grande”, conta a gerente comercial. “Eu fui morar com uma tia que era obreira. Ela me acolheu e me levou à Universal”, conta Valéria, que diz não guardar mágoa de sua mãe. “Se ela tivesse conversado comigo e pedido para eu explicar se era verdade ou mentira, mas ela não me ouvia e logo partia para a agressão. Falaram tanto sobre mim e no final das contas eu não fazia nada de errado. Eu jamais faria o mesmo com alguém”, diz.
Caso Escola Base
O caso mais emblemático no qual a imprensa condenou e manchou para sempre a reputação de pessoas inocentes ficou conhecido como “Escola Base”. Em 1994, Icushiro Shimada, um dos proprietários da escolinha, sua mulher, Maria Aparecida, professores e um perueiro foram acusados de abusar sexualmente de crianças. O delegado determinou a prisão de todos. Eles foram ameaçados de linchamento e tiveram suas casas depredadas pela população. No final das contas, descobriu-se que eles eram inocentes. Icushiro desenvolveu problemas cardíacos e morreu, no dia 16 de abril deste ano, vítima de um enfarte.Sua esposa morreu de câncer em 2007.

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